As Quatro Estações

Na música , ” As Quatro Estações ” de Vivaldi,  e na arte ,” As Quatro Estações ” do designer João Paulo, com suas mandalas representando respectivamente, de cima para baixo, na ilustração, o inverno, primavera, verão e outono.

Com material reciclado, suas obras, executadas com a técnica de papel machê  e tingidas com borra de café ou com pó do pigmento da casca do eucalipto, são belas e sustentáveis. Falando em sustentável, o espaço que abriga essas jóias, possuem nichos e pisos de madeira resgatados de uma demolição, que estavam prestes a se transformar em cinzas numa fogueira, se não fosse a intervenção do artista, comenta a simpática gerente comercial Rafa, entusiasmada com o feito.

Eu não resisti e adquiri algumas peças.

 O acervo está em exposição permanente de sexta à domingo, na Avenida Ministro Nelson Hungria, 245, no centro de Santo Antônio do Pinhal, São Paulo. Fones : ( 11 ) 9250 56 37  ou ( 35 ) 8443 00 39.

Para conhecer mais sobre o trabalho do designer João Paulo acesse : www.joaopaulodesign.com.br

Primavera 2011

“A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.”

Texto extraído do livro “Cecília Meireles – Obra em Prosa – Volume 1”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

Palácio,Estação … Museu Orsay

                                                                 

 Situado no centro de Paris, as margens do Sena, o museu Orsay, que anteriormente já foi uma estação de trem e também um palácio, abriga hoje uma coleção de grande riqueza artística, com quadros, esculturas, maquetes de arquitetura e fotografia.

Em 1871, o então palácio de Orsay foi devastado por um incêndio e se transformou em ruínas… renasceu como estação de trem em 1900, com o projeto de Victor Laloux… em 1910, devido a fortes chuvas, a estação fica  mais de 5 metros embaixo d´agua e vira lugar para pescar… em 1939 o tráfego de trens foi interrompido definitivamente, pois a estação não se adequava mais ao avanço tecnológico, com trens mais modernos… o espaço vazio e abandonado se converte em cenário improvisado de diversos acontecimentos, como lugar de acolhida para prisioneiros de guerra e deportados. Nos anos 60 correu o risco de ser demolido para construção de um hotel, porém em 1978, a estação foi declarada monumento nacional e o estado convocou um concurso para projeto de um museu. Os arquitetos  Pierre Colboc, Renaud Bardon e Jean Paul Philippon foram os vencedores.

A concepção do projeto estabeleceu a entrada do museu pela rua Bellechasse e distribuiu as coleções ao largo da grande nave, conservando a amplitude do espaço.Próximo aos arcos  existentes foram criados espaços para as coleções permanentes e no piso superior, uma larga galeria. Para o projeto de interiores, em 1980, foi confiado à arquiteta italiana Gae Aulenti, que elegeu materiais, cores, criou o mobiliário  museográfico e estudou as distribuições das coleções.

É admirável ver a conclusão do trabalho desses profissionais que respeitaram a linguagem do trabalho proposto no começo do século passado, dando uma nova função, restaurando elementos arquitetônicos importantes e criando novos elementos, que geraram um lindo espaço contemporâneo, que permite sentir a presença do edifício original.

Paris … vida moderna num palco de história !

Paris … linda, romântica, artística e poética, como no mais recente filme de Woody Allen, ela também me conquistou !

Seus monumentos, carregados de história, falam de um tempo onde Deus está presente nos detalhes arquitetônicos. As igrejas, palácios, museus destacam- se não somente pela beleza e suntuosidade, mas pelo enquadramento perfeito, numa perspectiva onde o centro ” salta aos olhos ” como um presente e as laterais, não menos importante, emolduram com respeito, formando um conjunto equilibrado e harmonioso. Quando vi a Torre Eiffel pela primeira vez foi emocionante, além da sua imponência, com seus 320 metros, foi projetada ali com tanto talento que no meio de suas estruturas principais você pode visualizar, exatamente no centro, o palácio de exposições, o Palais de Chaillot.

Quanta maestria !!!

E o passeio no Sena ? De barco ou a pé revelam a cada deslocamento, de uma ponte a outra, as surpresas e encantamento dessa cidade. Nas suas margens, parisienses aproveitam o tempo para tomar sol, caminhar, conversar, namorar, ler e sobre as pontes, atravessar  de um lado para o outro para trabalhar, estudar e conhecer toda diversidade cultural e turística que a cidade oferece. Tive a oportunidade de numa noite quente fazer um programa típico dos parisienses de todas as classes sociais … sentar na Pont des Arts e curtir uma conversa gostosa, observando as luzes da cidade refletidas no Sena, em constante movimento de barcos. Grupos de amigos, família e namorados levam ” comes e bebes ” e se divertem fora de casa, de uma maneira prática, segura e econômica. Por falar em econômia, normalmente moram em apartamentos com metragem quadrada pequena, oque incentiva a curtir ainda mais a cidade, repleta de cafés. Estes possuem disposição de mesas e cadeiras voltadas para o exterior, onde as pessoas sentam-se lateralmente, uma as outras, de frente para as ruas, como um espetáculo para ser vivenciado.

As igrejas são lindas … Notre Dame … Saint Germain … Sacre Coeur, com o afresco da imagem de Jesus pairando no céu é inesquecível e tem uma energia poderosíssima e a exclusiva igreja Saint Chapelle que recebe em grande estilo, num  concerto de Vivaldi com as Quatro Estações, que tive o privilégio de assistir, cuja publicidade do evento acontece em cartazes nas ruas e no metrô, incentivando à cultura à todos.

Dedico este post à anfitriã Ana Tereza, pelo carinho, generosidade e pela oportunidade concedida de conhecer uma Paris ainda mais alegre, emocionante e requintada.

Foto : Arco do Triunfo por Kiko Albert